Amor não basta

Juntos há quarenta anos, eles 
contam como superaram as crises
e por que acreditam no casamento

Estatísticas sobre o casamento costumam ser perturbadoras. De acordo com números do IBGE, a cada ano uma em quatro uniões se desfaz no Brasil. Outra pesquisa séria mostra que sete em cada dez matrimônios terminam em até dez anos. Desanimador, não? A principal razão de tantas separações, segundo os especialistas, é o fim da paixão – algo tão certo e sólido quanto envelhecer. O grande dilema das pessoas casadas é como continuar unidas depois que arrefece a euforia dos primeiros tempos. O que sobra depois que a paixão acaba? Não existe receita que funcione em todos os casos, mas quem permanece junto depois de muitos anos parece contar uma história parecida: vontade mútua de manter a família, um projeto de vida em comum e muito companheirismo. Quem vive a situação explica melhor. Eis os depoimentos.


Otavio Dias de Olveira
"EU COMPARO A UM NEGÓCIO"
JOÃO MORAES, 63 anos, empresário, casado com CÉLIA, 55 anos, dona-de-casa

"Para ficar tanto tempo junto, é preciso mais do que amor. O que faz o casamento durar é ter projetos em comum. Pode ser a criação dos filhos, a compra de uma casa, a ampliação do patrimônio. Isso torna o elo sólido. Faz olhar para a frente. Eu comparo o casamento a um negócio. É preciso ter estratégias e planos de ação. Quem ouve pode achar que estou sendo pragmático demais, mas não é isso. Viver só de beijinhos não existe. Depois de quarenta anos, é preciso um desafio. Num casamento longo, passa-se por muitas crises e momentos intempestivos. No calor das brigas, você fala qualquer coisa, até que vai sair de casa. Mas, de fato, nunca pensei em me separar de verdade. São muitos anos de batalha juntos. Temos uma história. A gente não joga isso fora por qualquer bobagem. A vida íntima é outro aspecto desafiador. É preciso continuar atraente. Não dá para engordar, ficar desleixado, cair na monotonia. Quem faz isso não cuida da relação. Acredito que o segredo das uniões estáveis também é manter a individualidade. Poder ser você mesmo. Sem cobranças, sem interrogatórios, sem perseguições. Ter a própria vida. Viajar a trabalho, por exemplo, é ótimo. De longe, a gente consegue dar valor à mulher, à família, à rotina e perceber a importância desse porto seguro. A saudade renova a relação. É fundamental sair de cena e ver a própria vida juntos em perspectiva."


Oscar Cabral
"SOMOS UM BLOCO INABALÁVEL"
REGINA CARVALHO, 63 anos, dona-de-casa, casada com FERNANDO, 63 anos, consultor financeiro


"Há inúmeras situações na vida de um casal que colocam à prova o relacionamento. Momentos em que você pára e pensa: 'Isso vale a pena?'. No nosso caso, houve um episódio definitivo, que nos uniu como família de maneira irrefutável. Em 1989, nossa corretora de valores quebrou depois de receber um cheque sem fundos de Naji Nahas. Foi um tremendo escândalo financeiro. De um dia para o outro, ficamos sem dinheiro, expostos, vulneráveis. Ali, tivemos a noção exata de quanto um era necessário ao outro. Viramos um bloco inabalável, junto com nossos cinco filhos, contra todas as intempéries. Certamente muitos casais teriam se separado, mas aquilo mudou nossa relação (para melhor) para sempre. Claro que às vezes a gente se sente de saco cheio um do outro, mas passa. A convivência duradoura faz a gente distinguir o que é importante do que não é. Não sou insegura, mas claro que já desconfiei dele. Mas nunca fui de procurar fios de cabelo e dar incertas. Quando cheguei à conclusão de que queríamos ficar juntos para sempre, deixei de me preocupar. Se houvesse traição hoje, eu acharia uma piada. Não iria aceitar, mas não ia chutar o balde por isso. Nunca achei que um dia fosse pensar assim."